quinta-feira, 28 de abril de 2016

A Avó Ana

Era uma vez... Uma senhora, a A. 
A A tinha olhos azuis, cabelos grisalhos, poucos dentes e muitas rugas. Vestia o preto e ostentava com orgulho o pouco ouro que tinha. Para ela, o ouro era a única coisa que ia deixar. Estava enganada. Embora fossem poucos os dentes que lhe restavam, nunca a ouvi queixar-se de não conseguir comer. Esse sempre foi um dos poucos prazeres da vida. Para a A a sua canequinha metálica com vinho e um bom pedaço de pão de milho era suficientes. A fome já tinha passado, mas a simplicidade no gosto permanecia. Só mais tarde descobriu o paladar dos iogurtes(augustos) e dos gelados(escomungados). O vocabulário desatinado e engraçado era o seu ponto forte. Aliás, tudo na A era engraçado! As palavras que ela criava eram tantas que podia escrever um dicionário só dela. 
A A era uma mulher, mãe, avó, bis-avó feliz. Apenas em dois momentos a vi sofrer, a quando a perda de dois filhos, um por morte outro por estupidez. Acredito, que outros momentos passados a tenham magoado,mas a sua alegria contagiante era tanta, que ao longo dos meus 27 anos não vi infeliz. Era sorrisos, eram asneiras, eram lágrimas, gestos, olhares... Ai os olhares. 
Nestes últimos meses a A já só tinha sorrisos e olhares. Depois de muitos sustos, as mazelas já eram muitas, mas forte a A dava sorrisos, e olhares. 
A A criou-me, educou-me alimentou-me, durante a minha infância, e mesmo agora depois de ter partido continua a ensinar-me. Dela tiro os exemplos bons ou maus são os ensinamentos que ela me deixou. Para além de boas memórias, muitas histórias e bons momentos a A deixou-me um orgulho, um grande orgulho. A minha Avó, é melhor e foi a maior! Guerreira, companheira, doce, engraçada, directa, verdadeira, carinhosa, preocupada e de coração aberto! 
Herdei da minha avó todo amor na mais bela forma de o demonstrar: no olhar. Não preciso de dizer o que sinto nem a quem sinto, basta olhar-me nos olhos. 
Tenho orgulho de ter conhecido tal mulher e ter vivido o seu amor.
Esse amor não se mede em lágrimas nem em sorrisos. Esse amor vê-se nos gestos e nos pensamentos.
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Querida avó, 
espero que estejas confortável por aí. Esse sítio que não conheço, mas muito ouço especular. Quero que saibas que deixas-te saudades, mas também boas lembranças. Deixas-te mais sorrisos, do que lágrimas, ah sua mulher forte, que a mim fortificas-te com actos e palavras. 
A ti devo bons anos da minha vida.
Serás sempre lembrada como a minha segunda mãe. Mãe da minha mãe. Quem melhor para me criar?
Com o teu feitio e coração dócil me moldas-te. Preparas-te o meu caminho e me fizeste mulher. Tenho para a vida um grande exemplo. Esse ninguém mo tira. Morres-te em corpo mas o teu amor habita em mim. Embora gostasse muito que estivesses em pele e osso no meu casamento, sei que não faltarás. E eu não me esquecerei de ti! " Põe tento nisso!" 
Espero conseguir transmitir aos meus filhos , teus bis-netos ( se os tiver) toda a essência e verdade que tu me deste. 
Agora falando de coisas mais virais, tenho saudades tuas, porra! 
Eu vou-me portar bem.
Prometo.
Um beijinho cheio de ranho e baba da tua nojentinha

sábado, 2 de abril de 2016